Os Surdos no Ensino Superior Brasileiro:
um decalque cartográfico parcial das significações docentes sobre suas quase não-presenças
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.17881331Resumo
Este estudo entende que há crescimento do acesso de estudantes Surdos ao ensino superior brasileiro, impulsionado por marcos legais, porém, persistem altas taxas de evasão e um fenômeno de "quase não presenças", caracterizado por presenças com participações e pertencimentos mitigados. O problema de pesquisa questiona: como as significações docentes sobre estudantes Surdos no ensino superior contribuem para seus processos de evasão em cursos de licenciatura? O objetivo geral foi analisar as significações docentes sobre estudantes Surdos em uma licenciatura e suas implicações para possíveis processos de permanência e evasão desses estudantes. Os objetivos específicos foram: identificar as significações docentes sobre estudantes Surdos em um curso de licenciatura; examinar como essas significações se relacionam com concepções de surdez (médica versus socioantropológica); investigar as implicações dessas significações para as práticas pedagógicas e para a permanência dos estudantes Surdos; e explicitar reflexões sobre formação docente fundamentada no bilinguismo e na perspectiva cultural da surdez. A fundamentação teórica ancora-se no paradigma socioantropológico, que entende a surdez como diferença linguístico-cultural, e no conceito crítico de ouvintismo, sistema que naturaliza a superioridade ouvinte. A metodologia qualitativa empregou um relato de experiência reflexiva com características de estudo de caso instrumental, de natureza exploratória, que busca compreender as significações docentes sobre estudantes Surdos a partir de um contexto formativo vivenciado pelo pesquisador. Utilizando o método dos Núcleos de Significação para analisar discursos docentes/discentes em um encontro formativo, os resultados e discussões revelaram dez núcleos de significação, organizados em três eixos: concepções que patologizam a surdez e veem o aluno como fardo; práticas que naturalizam barreiras e transferem responsabilidade; e tensões que expõem o hiato entre intenção inclusiva e ação excludente. Conclui-se que as significações docentes, majoritariamente arraigadas no modelo médico e em visões capacitistas, atuam como mecanismos produtores das "quase não-presenças" para transformar as culturas institucionais, promovendo inclusão substantiva.